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O que aprendemos com os 30% a mais de IPI para importados

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O que aprendemos com os 30% a mais de IPI para importados
O ministro Guido Mantega no anúncio do aumento (foto: Uslei Marcelino/Reuters)

Uma vez um amigo contabilista disse “na dúvida, considere a opção em que o governo ganha mais. Ele nunca perde, mesmo quando está errado” e ela se aplica bem ao caso. Ultimamente há toda aquela discussão em torno do preço do automóvel no Brasil, que é caro, que as montadoras abusam, que nossa carga tributária é alta e tudo o mais. Não sou especialista nisso, mas o preço de quase tudo no Brasil é fruto também da política do “se colar, colou” em que se dá um preço elevado a um produto e se o mercado o absorver em boa quantidade, mantém-se o preço. Claro que há também a lei da oferta e procura e quando o governo abaixou o IPI de diversos setores no ano passado, houve um grande aumento nas vendas, o que, dizem, causou uma inflação acima do esperado e o preço de praticamente tudo subiu.

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Foram tomadas medidas para conter isso: Aumentaram as taxas de financiamento, dificultaram a aprovação de fichas e teoricamente impossibilitaram o financiamento sem entrada. O ritmo das vendas diminuiu um pouco, mas há outro fator envolvido: Importados. Estão vendendo muito, quebrando recordes sucessivos de vendas, tudo fruto de um bom trabalho em marketing, atendimento e pós-vendas. Há exceções quanto a esse último fator, mas fato é que os asiáticos estão crescendo a largos passos por aqui.

Design, tecnologia e preço. Essas três qualidades estavam em falta nos veículos nacionais, por culpa nossa: Aceitamos pagar caro em nossos carros, desprezamos tecnologias como cabeçotes multiválvulas (motores 16V), airbags de série (Renault Clio e Scénic) e sobrealimentação (Turbo e Supercharger). Nos preocupamos mais em estar num carro “novo” básico do que andar com um mais antigo, porém completo. Dizem que somos apaixonados por carro mas a maioria não tem o costume da manutenção preventiva e qualquer R$10 ou 20 a mais numa peça já é motivo para choro.

Por tudo isso, acho errado culpar as montadoras pelos carros que temos. Elas precisam lucrar e oferecem ao mercado o que ele pede. Se eu posso vender toda a minha produção por um preço elevado, porque abaixar? Para haver uma grande procura, minha empresa não dar conta e ter clientes insatisfeitos e a reputação manchada? Nós no lugar de um gestor, que precisa dar o máximo de resultados gastando o mínimo seríamos obrigados a fazer o mesmo.

Muita gente (incluindo eu) estava com grande expectativa quanto à chamada “invasão chinesa e asiática” no nosso mercado. Achávamos que oferecendo produtos completos e de qualidade a preços convidativos nossa indústria iria se mexer e se modernizaria, pressionando o governo para abaixar os impostos e assim, mesmo que aos poucos, teríamos carros melhores e mais baratos. Ledo engano…

O governo ofereceu novamente subsídios em impostos buscando reaquecer a venda de automóveis, e as fábricas responderam que não abaixariam os preços e que o subsídio facilitaria a instalação de Airbags e ABS sem grande impacto no custo, por exigência da lei que obriga os fabricantes a venderem um percentual de veículos cada vez maior com tais equipamentos. Em 2014 todo carro vendido no Brasil deverá ter eles de série.

O governo não aprovou tal subsídio e numa medida provisória (e protecionista) aprovou o aumento de 30% sobre o IPI de todos os carros com menos de 65% de peças nacionais e regionais (Mercosul e México, onde temos acordo comercial). Além dos componentes, os fabricantes precisarão cumprir pelo menos 6 de 11 requisitos em território nacional como montagem do veículo, estamparia, pintura, fabricação de motores, transmissões e embreagens, por exemplo. Quem se enquadrar nisso e ainda por cima investir no desenvolvimento de novas tecnologias no país está dispensado da alíquota.

Essa medida absurda tem como objetivo claro estimular a geração de empregos no país, mas de também ferrar os chineses e coreanos que estão crescendo muito em nosso mercado, e investindo nele também.

Muita gente questionou quando Hyundai, Kia Chery e JAC anunciaram planos de construir uma fábrica no Brasil e/ou expandir as já existentes. Aqui é mais caro, em alguns ramos a mão de obra é escassa e as leis trabalhistas são muito severas. A construção de fábricas deles ao meu ver foi uma estratégia para em caso de medidas absurdas como a de agora, elas não fossem tão afetadas como estão sendo. E também servem como uma defesa, por exemplo “não estamos apenas lucrando em seu território. estamos investindo nele!”. Mas o engraçado é que carros vindos de países do Mercosul e de países que o Brasil tem acordos comerciais (México) estão dispensados do imposto extra, ou seja, poderão construir fábricas na Argentina ou Uruguai (que sai bem mais barato) e entrar aqui com bons preços.

O que pode vir a acontecer

-Algumas fábricas que investiram em estrutura de vendas e distribuição perderão vendas e caso não tenham como conter a perda diminuindo sua margem de lucro, podem se retirar do país.

-O argumento de “mais por menos” das chinesas pode cair por terra e seus produtos podem não valer mais tanto a pena assim. Pelo risco, muitos clientes potenciais podem optar pelos nacionais.

-Garantia de longo prazo: Se alguma delas sair do mercado, não se sabe como seus clientes farão com garantia e compra de peças pra reposição. Vai levar um tempo até auto-peças comuns terem estoque pra tais carros, mas há o grande risco disso não acontecer e terem que recorrer a importadores de peças.

-Elevada desvalorização por conta de falta de assistências e disponibilidade de peças no mercado.

-Não sei quanto as obras de novas fábricas. Pode ser que continuem, pode ser que alguma marca saia do país e venda a estrutura para outra, mas é uma hipótese remota.

Tudo isso poderia ser evitado se houvesse o aumento gradual de tais impostos. Haveria todo um planejamento das próprias marcas para se adequarem às exigências do mercado e muitos problemas poderiam ser evitados. Caso as marcas fechem revendas ou até mesmo saiam do país, haverá desemprego no setor e novamente ficaremos com veículos defasados e na mão de poucos fabricantes. É uma pena que tudo isso esteja acontecendo. A concorrência é saudável para o mercado e principalmente ao consumidor, que merece produtos de qualidade e tecnologia. A abertura das importações nos anos 90 revolucionou nossa indústria e nunca o setor automobilístico nacional evoluiu tanto quanto naquela época. Já vi esse filme antes em 95 ou 96 quando a alíquota de importação subiu de 35 para 70% da noite pro dia. Naquela época o Tipo chegou a ser o carro mais vendido do país por um mês, na frente do Gol, pouco antes do escândalo dos “motores fire”…

O Tipo chegou a ser o carro mais vendido do país. Logo após, aumento drástico no imposto de importação.

O que já está acontecendo

-A JAC Motors enviou uma nota à imprensa dizendo que tal medida é desnecessária, visto que quando houve um aumento do tipo, estávamos num cenário econômico totalmente diferente do atual, e que eles não representam uma ameaça, já que todas as marcas chinesas juntas representam apenas 2,5% do total do mercado. A medida também fere as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) em que o teto para alíquotas para importação de automóveis é de 35%. A JAC informou também que graças ao seu estoque, por enquanto não haverá alteração nos preços de seus veículos e que os planos de construção de sua fábrica no Brasil (um investimento na ordem de R$900 milhões) permanecem inalterados.

-A ABEIVA (Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores) enviou uma carta aberta à presidente Dilma pedindo para que o decreto 7567 seja revisto. É quase certo de que a associação entrará com ações para invalidar tal medida, que segundo seu presidente, José Gandini, . “Em questões de impostos como IPI, as mudanças só podem acontecer após 90 dias do anúncio.”

E o que aprendemos com isso tudo? Que em nosso país, reina a “Lei de Gerson” em que se busca levar vantagem em tudo e que o brasileiro sempre pagará a conta pelos erros de nossos representantes. E que mais uma vez, a frase de Charles de Gaulle faz todo o sentido, “Le Brésil n’est pas un pays serieux” (“O Brasil não é um país sério”).