Guia – Importado usado: Vale a pena?

0
6257

No jornal, o anúncio soa tentador: “BMW 325i 92 automática completa, AirBag, ABS, teto solar. 15 mil”. Um legítimo representante bávaro, com um excelente 6 cilindros, super completa no preço de um popular com alguns anos de uso. Nessas horas o coração bate de frente com a razão. Aquele modelo que até hoje é símbolo de requinte e esportividade, por um preço ridiculamente baixo. Mas o que a princípio parece ser um ótimo negócio logo pode se tornar um pesadelo. Ou não, a depender de umas coisas que veremos a seguir:

Manutenção

Todo carro dá defeito, e não importa a marca, o segmento ou a forma com que ele foi cuidado. Cedo ou tarde você terá que trocar algumas peças, além da manutenção preventiva. É justamente esse o principal motivo que afasta compradores destes veículos e os desvalorizam tanto.

Tenha em mente que quando novos, estes carros eram comprados por pessoas com dinheiro de sobra, afinal um carro de luxo foge da questão de “necessidade” que perpetua a compra de muitos veículos e já passa a ser escolhido por uma questão de ego também. Porém, o tempo passa e logo caem no mercado de usados, sendo adquirido por pessoas com renda cada vez menor, justo quando a manutenção se torna cada vez maior. Entendeu a questão? Até mesmo peças simples como uma válvula termostática que custa R$50 num carro popular, chega a R$380 num importado de luxo. E isso usada, já que encontrar algumas peças novas são uma missão quase impossível. Para a sorte dos donos, já existem autopeças especializadas neste nicho, com preços razoáveis.

Além das peças, há a mão-de-obra. Achar uma oficina honesta e com mecânicos preparados para lidar com estes veículos não é fácil. Já vi muita gente levar prejuízos muito maiores ao confiar seus importados a mecânicos despreparados. Nessas horas, os fóruns e clubes especializados são uma mão na roda, indicando profissionais especializados para cada tipo de reparo e até mesmo tutoriais para que você mesmo possa resolver o problema em casa.

Mesmo assim é necessário um olhar clínico e muito conhecimento sobre o modelo que você deseja adquirir, afinal não é raro encontrar modelos aparentemente impecáveis, mas que escondem inúmeras gambiarras, Pequenas bombas-relógio prontas para armar. Vale levar o carro até a um capoteiro e eletricista de confiança e pagar por uma análise.

Revenda

A compra de um carro é composta de várias etapas e há pessoas com as mais variadas necessidades e rendas, que valorizam diferentes coisas num carro. Um que corre o risco de ficar dias a espera de uma peça não é interessante pra quem precisa do mesmo todos os dias para trabalhar e não tem um segundo carro, situação comum a maioria dos brasileiros. Por melhor que seja em termos de equipamento, tudo isso pode cair por terra numa situação em que transportes coletivos não são uma alternativa. É mais um fator que se deve pesar quando não se possui uma boa estabilidade financeira, onde de um dia pro outro podemos ficar sem trabalho e/ou numa situação delicada que nos faça ter que vender o carro ou reduzir as despesas ao máximo.

Eles podem ser uma boa

Em suma, manutenção e revenda são os calcanhares de Aquiles dos importados. Mas vieram alguns importados pra cá que não possuem uma manutenção cara e/ou difícil e podem até ser bons de revenda. Vejamos alguns exemplos, todos a partir dos R$8 mil:

Chevrolet Astra e Daewoo Espero


Muita gente acha que o Astra belga é nacional. Veio em uma versão exclusiva para o Brasil, com o conhecido 2.0 8v que já equipava os médios da marca, na época. O grande barato, além do preço, é que além da mecânica, muitas peças de acabamento são as mesmas do primeiro Vectra. Tive a oportunidade de andar em um e a qualidade do acabamento e conforto ao rodar são exemplares, mesmo após 16 anos depois de sua importação. Não faz nenhum barulhinho, e não é difícil encontrar unidades equipadas com Airbag duplo e ABS. Quanto a peças como lanterna, parachoque e etc podem ser um pouco difíceis de achar, mas não possuem preços indecentes.

O mesmo acontece com o Espero, que usa a plataforma do Vectra da época e design do estúdio Bertone. Além das qualidades já conhecidas do Vectra, possui um design ainda mais elegante e uma ótima visibilidade. Na mecânica, é o mesmo caso do Astra. Mas sua revenda não é tão fácil como a do Astra, que conforme falei, muita gente acha que é nacional.

Seat Ibiza e Córdoba

A Seat é uma marca espanhola que antes de pertencer a Volkswagen, era da Fiat. O Córdoba e Ibiza nada mais eram do que o Polo sedan e hatch europeus mais esportivos – inclusive esse o apelo principal da marca. Assim sendo, muitas de suas peças são também de outros modelos Volkswagen, como o Polo Classic e o Golf, que emprestou seu motor 1.8 de 90cv da versão GL nos primeiros anos da marca por aqui. O único porém fica por conta de ruídos internos, que segundo os proprietários, em alguns casos irritam bastante.

Toyota Corolla e Honda Civic

A fama de inquebráveis se repete também nos importados. Disponíveis nas mais variadas versões, ambos são bastante confortáveis, seguros e mesmo após anos e anos não dão problemas graves. Mas nas poucas vezes que dão, as peças são razoavelmente fáceis de achar (compartilham peças com os primeiros Civics e Corollas nacionais) mas a mão de obra pode ser um pouco cara, problema comum aos Japoneses.

Principalmente nos Hondas, o cofre do motor é bem apertado e as vezes é necessário mexer em várias peças para se chegar a uma. Experiência própria, mas que não sirva para desencorajar a compra de algum deles. São bons carros.

Peugeot 306 e Citroën Xsara


Inicialmente importados da França, também vieram da Argentina e o último, foi até fabricado no Brasil por um tempo. Médios com mecânica conhecida e componentes comuns entre si, ambos são bastante confortáveis e estáveis. Não é difícil encontrar modelos com bancos de couro, ABS e Airbag, ainda mais nos Xsara.

Também tiveram versões esportivas (306 S16 e Xsara VTS) com motor 2.0 16V de até 167cv. Componentes de suspensão tem preços compatíveis com os concorrentes nacionais (Astra e Golf), o único porém é que podem haver alguns ruídos internos bem chatos, comuns a importados.

Estes podem ser uma bomba

BMW, Mercedes, Audi, Mitsubishi, Volvo, Subaru e outras do gênero.

Que fique bem claro que são ótimas marcas e com excelentes carros, nada contra. Porém é inegável que o custo de manutenção e a dificuldade de se encontrar peças é bem grande, que se agrava em modelos raros e que vieram sob importadoras independentes. Pela experiência de amigos e familiares, os Mercedes costumam ser mais resistentes, dão menos problemas e possuem maior aceitação no mercado, mesmo assim sua manutenção requer cuidado e mão de obra especializada, como qualquer outro carro do mesmo segmento.

As óbvias exceções


Se você já possui um carro para o dia-a-dia e quer um para curtir no final de semana ou viagens com a família e/ou está diante de um carro raro, futuro clássico e que você pode bancar, siga em frente. Em situações assim, se o carro ficar parado por mais tempo, não comprometerá seus compromissos e nem a sua renda. Será inclusive algo para se divertir e passar o tempo, se você é como eu e gosta de mexer e consertar o carro como uma terapia…

Dicas finais para comprar um importado

Além das habituais, de olhar a mecânica, pintura, etc, segue mais algumas:

1) Pesquise muito!
Hoje podemos encontrar praticamente tudo sobre um determinado modelo na internet. Em fóruns e clubes da marca ou modelo, podemos encontrar muitas informações a respeito de defeitos, qualidades, custos de manutenção e também indicações de profissionais que já provaram saber trabalhar bem com tal modelo. Com isso e mais outros guias de compra de grandes sites você pode ir “armado” para avaliar melhor um modelo, sem cair nas lábias de vendedor.

2) Pague por uma análise
Essa de levar a um mecânico pra ele “dar uma olhadinha” não funciona. Ninguém trabalha de graça e certamente ele tem muito mais carros para consertar (ganhando pra isso) e não terá tempo de fazer uma boa análise no veículo. Ofereça pagar por uma vistoria completa, num mecânico, funileiro e capoteiro afinal o carro pode ter vários problemas e gambiarras escondidas que custarão muito mais que uma análise para serem resolvidos. Só faça isso se você tiver realmente com o melhor exemplar encontrado, e se o dono ou vendedor se negar a liberar o carro pra isso, é porque alguma coisa tem. Quem tem um bom carro em mãos não se intimida com isso, pelo contrário, estimula.

3) Exija garantia e/ou desconto
Isto só vale caso o carro esteja sendo comprado numa loja. Apesar de ser lei, muitas (muitas mesmo) lojas são espertinhas e conseguem manipular a venda de forma que aos olhos da lei pareça que foi feita entre pessoas físicas, logo, a lei da garantia não incide sobre elas. Não confie em despachantes indicados pelas lojas, pois eles podem fraudar vistorias e demais operações para que, no final você se dê muito mal. Exija um comprovante de venda, que seja o documento do veículo no nome da loja. Peça sempre descontos, em média as lojas lucram entre 15 e 20% sobre cada carro. Peça ainda mais desconto ou o reparo se você descobrir um ou outro defeito. As vezes o carro está muito bom, com um detalhe contornável, que caso reparado não signifique problemas grandes posteriores.

4) Quanto menos donos, melhor
Muita gente compra um carro e fica muito tempo com ele, seja por afeto ao veículo, seja por não ter visto necessidade para trocá-lo tão cedo. Esse tipo de proprietário normalmente cuida bem do carro, fazendo manutenção em dia e cuidando bem da pintura e tudo o mais. De qualquer maneira, não é garantia de ausência de problemas, mas é um fator tranquilizante. Um carro que teve muitos proprietários num curto período de tempo pode significar um carro com muitos problemas. Como também um com poucos proprietários passou a dar muitos problemas agora. Olho vivo!

5) O barato pode sair caro
Você pode olhar praquele carro, bem abaixo do preço normal de venda mas com algumas coisas a fazer, um bom negócio. Pois pense bem, veja os custos. Pois o que parece ser apenas um defeitinho, quando analisado a fundo, esconde um problemão que torna o carro muito mais caro e trabalhoso do que aquele outro, impecável, porém mais caro.

Conclusão
Espero ter ajudado a você que procura um carro importado ou pensa em futuramente pegar um. Peço, por experiência própria, que pesquise muito, que compre com calma. O carro ideal é aquele que você pode bancar uma manutenção preventiva, com peças de qualidade sem comprometer seu orçamento. De nada adianta sair de um popular ou médio com manutenção em dia e pneus de qualidade para pegar um importado e ter que recorrer a peças de ferro velho, pneus remold (ou meia-vida) e abastecer num posto de qualidade duvidosa. Já vi pessoas que se comprometeram a ponto de arruinar relacionamentos de tanta despesa que o carro deu, por conta de uma compra impensada, no impulso. Espero que isto não aconteça com você, caro leitor.

 

E ai, já viu os carros zero de 27 anos de idade? clique aqui para ver!