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jul
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Saiba tudo sobre motores flex

Postado em Guias, Informação, Utilidade por Rafael Moreira - Comments

Já faz 8 anos que temos carros flexíveis no nosso país (o primeiro foi o Gol 1.6 Total Flex) e mesmo assim há muitas dúvidas em torno deste tipo de motor, suas características e, principalmente, sobre qual combustível é melhor pra ele a longo prazo.

O que ele tem de diferente?

Basicamente o chamado “motor flex” nada mais é que um motor que já existe com mais sensores e sistema de injeção e ignição que se adaptam a cada tipo de combustível e em alguns houve alterações no cabeçote e pistões, de forma a aumentar a taxa de compressão e ser mais eficiente, principalmente no etanol. Além disso, na maioria deles há um “tanquinho” de gasolina para partidas a frio, quando abastecido com etanol.

Meu carro é a gasolina (ou álcool), tem como converter?

Não recomendo de jeito nenhum. Motores monocombustíveis foram feitos para o uso de um determinado combustível e nada mais. Usando outro você vai agredir todos os componentes que o combustível percorre, podendo causar desde a queima de uma bomba de gasolina ao ressecamento de mangueiras e linhas de combustível, podendo causar até um incêndio. Além do mais, kits flex podem até alterar ponto de ignição e outras coisas, mas o consumo fica horrível. Por exemplo, se um carro fazia 10Km/l na cidade com gasolina, usando álcool nesses kits, dificilmente passará de 5 ou 6Km/l. Uma conversão perfeita sai tão caro que vale mais a pena trocar o motor ou trocar de carro. Mas se quiser arriscar…

Devo usar somente álcool/etanol ou gasolina?

Não. Pode-se usar misturas de ambos em qualquer proporção. Os fabricantes recomendam que, para melhor rendimento (custo por quilômetro), busque usar somente um ou outro. A mistura não causa problemas mecânicos, mas manter um só combustível sem alternar pode, como veremos adiante.

Como saber se vale a pena abastecer com etanol ou gasolina?

Repetida como um mantra, a “continha dos 70%” não serve pra todos os carros, ela é baseada na teoria de aproveitamento e rendimento de cada combustível. Mas cada carro aproveita melhor um combustível do que outro e essa conta deve ser feita da seguinte maneira:

1-encha um tanque com gasolina e rode normalmente pelo seu percurso diário. (por ex. ir e voltar do trabalho)
2-encha ele novamente com gasolina, preferencialmente no mesmo posto, bomba e da mesma forma (no 1º clique da bomba pressionando a mesma na metade do curso, por exemplo) e divida a quilometragem percorrida pela quantidade de combustível abastecido.
3-anote o valor do consumo. Espere este tanque chegar bem próximo do fim e o complete com álcool, para repetir o mesmo procedimento sem interferência considerável de gasolina no tanque.

Dá um certo trabalho mas você terá a proporção exata dividindo o consumo no álcool pelo da gasolina. Já vi alguns chegarem a 73,5% e outros a 54%…

Fiz as contas e tanto faz abastecer com um ou com outro. Qual é o melhor, afinal?

Depende do que você quer, e do clima também. A grosso modo, se busca autonomia, escolha Gasolina. Se quer desempenho e/ou menor índice de poluentes, etanol. Recomendo usar gasolina em dias e épocas frias, pela facilidade de partida e por ela esquentar o motor mais rapidamente, fazendo com que ele trabalhe na temperatura ideal (o que traz maior economia e menor desgaste do mesmo). Já em dias quentes, opto por etanol ou o mesmo misturado com gasolina, pelo desempenho e por exigir menos do sistema de arrefecimento, já que o etanol queima numa temperatura mais baixa.

Os primeiros abastecimentos devem ser com gasolina?

Não. Há quem diga que a Gasolina é menos agressiva que o etanol e por seu aspecto levemente oleoso, ela ajuda a manter válvulas, anéis e outros retentores lubrificados (o que é verdade) e que por isso é recomendável usá-la nos primeiros abastecimentos. Porém, fabricantes defendem que o veículo já sai de fábrica preparado para usar etanol durante toda sua vida útil e que isso não prejudica. Hoje vejo muito carro zero que já vem de fábrica abastecido com o derivado da cana, por ser mais barato, evidentemente.

Gasolina Premium e/ou Podium vale a pena?

Só se o fabricante recomendar, como é o caso do Civic Si e Golf GTI com 193cv. Dizem que em motores com alta taxa de compressão (acima de 10:1) ela dá maior potência e economia, e a Podium é indicada para importados por conter menor teor de enxofre, comparável ao das premium européias. Pude testar a mesma numa BMW 318is (10:1 de taxa) e num Celta VHC Flex (12,6:1), e os resultados não foram animadores. Nenhuma melhora na BMW, seja em desempenho, suavidade ou consumo. No Celta, apesar dele nunca ter batido pino na gasolina, ficou bem mais esperto, com mais “pegada” e suavidade, porém seu consumo aumentou bastante, de 16,5~17Km/l de média para nem 13, e acredite, eu “segurei o pé”. Depois disso não obtive médias satisfatórias na gasolina, tendo que resetar a central para voltar às médias anteriores.

Motor flex dura menos?

Mentira. Como um motor todo retrabalhado para trabalhar com etanol e gasolina, em que até mesmo suas peças sofreram modificações em sua fabricação para resistirem ainda mais à corrosão do nosso etanol, pode durar menos que um feito só para gasolina? Este mito tomou força depois dos problemas que ocorreram por uso prolongado de etanol, que será explicado na próxima questão.

Na minha região só um combustível vale a pena. Posso usar ele direto?

Não recomendo, apesar que muitos fabricantes dizem que não há problema. Já presenciei carros que rodaram direto no álcool (com ou sem aditivos, experiência própria) e tiveram problemas de entupimento de bicos injetores e queima da bomba de combustível com menos de 40 mil Km. Em casos mais graves ele resseca os retentores de válvula a ponto de causar perda considerável de compressão e consequentemente, rendimento. Indico a “ciclagem” dos combustíveis. A cada 3 ou 4 tanques de etanol, coloque uns 10 litros de gasolina para evitar todos os problemas descritos acima, que podem render uma conta boa na oficina, experiência própria.

Defeitos que isso ocasiona, e solução caseira pra tal

Um defeito comum a ambos os combustíveis é que no uso prolongado de apenas um deles, a injeção “travar” e ter dificuldades ou até mesmo não detectar e se adaptar quando se troca o combustível. O motor falha, tem dificuldades de partida e/ou consumo elevado. Para evitar isso, mude o combustível gradualmente. Por exemplo: 10% de etanol na gasolina, no próximo abastecimento, 20% de etanol e assim sucessivamente.

Se o procedimento anterior não der certo e/ou você ter trocado repentinamente de combustível e seu carro estiver falhando, uma solução caseira é desconectar a bateria por algumas horas (normalmente deixo a noite toda) e ligar novamente ela e o carro e deixá-lo ligado até armar a ventoinha do radiador, sem acelerar nem nada. Há quem diga que na maioria dos carros isso “reseta” a injeção e faz com que ao ligar o carro ele entrará em modo de adaptação, detectando o combustível corretamente, já alguns dizem que só resolve indo a uma oficina e com um scanner, voltar os parâmetros de fábrica. Comigo este procedimento me salvou quando, após usar gasolina premium, o carro ter passado a beber mais com gasolina do que etanol. Há também quem diga que ligando os conectores da bateria (desconectados dela, claro) com um fio, ajude a descarregar ainda mais o sistema, aí vai de cada um.

Se nada disso resolver, talvez seja problema na sonda lambda, sensor dos gases do escapamento que indica qual combustível está sendo usado e outras informações para melhor adaptação do combustível.

O lado ruim do flex brasileiro, e algumas dicas

No início os flex proporcionaram uma grande economia pra muita gente, mesmo com o alto consumo dos primeiros motores. Época em que álcool não chegava a custar R$1 e a gasolina era mais de R$2 o litro. Hoje os tempos mudaram a ponto de quando o etanol é vantajoso, é por bem pouco. Acaba sendo uma questão pessoal: De um lado a questão ecológica e de maior desempenho do etanol, do outro, o menor índice de corrosão e maior autonomia da gasolina, muito bem vista em viagens. Mas mesmo com gasolina, os Flex acabam bebendo mais que os mesmos motores somente a gasolina. Onde já se viu, um motor 1.0 fazer 8Km/l no etanol e na cidade?! Enquanto muitos “flexes” são mais econômicos no álcool quando este custa entre 65 e 72% do preço da gasolina, num Ford CHT 1.6 da década de 80, a relação entre consumo da versão álcool e gasolina era de 83,7%! (11,49Km/l no álcool, 13,7 na gasolina)

Sei que eram motores específicos pra cada combustível, mas se passaram mais de 30 anos! De lá pra cá os motores evoluíram muito em potência específica, várias gerações de injeções eletrônicas passaram e mesmo assim um 1.0 de hoje não consegue ter consumo melhor que um 1.6 carburado de 30 anos atrás. Dizem que a solução seria um motor de taxa de compressão variável, mesmo assim tamanha discrepância é difícil de ser engolida.

Outro problema é que nosso álcool combustível já começou errado. Em sua fase experimental, nos anos 70, havia uma briga entre as montadoras e políticos, em que as primeiras defendiam que a melhor proporção de álcool na gasolina era de 15%, em todos os quesitos (custo, consumo, desempenho, durabilidade e não exigia adaptação nos carros mais antigos) e o governo já queria mais de 20%, o que demandaria adaptação nos carros que já existiam, além de render menos. Venceu o governo, que de vez em quando muda a porcentagem do etanol (novo nome para o mesmo combustível), de acordo com a safra. Hoje varia entre 18 e 26%.

Não vamos esquecer do tanquinho, considerado por muitos (inclusive eu) uma aberração de engenharia. Ele existe pelo álcool ‘puro’ (na verdade hidratado com um percentual de água) causar dificuldade de partida a frio, demanandando um reservatório pra gasolina dentro do cofre do motor e um sistema de injeção (manual ou eletrônica) de gasolina. Um circuito que além de perigoso é caro, tanto que o Civic e Fit flex possuem um bocal de abastecimento fora do motor, e o tanquinho fica escondido no lado direito inferior do paralama, por segurança. E gasolina tem validade, substitua a do tanquinho a cada 3 meses ou use gasolina Podium que dura um ano sem perder suas qualidades.

A solução encontrada em outros países foi de acrescentar 15% de gasolina ao etanol (E85), o que acabou com o problema de partida nos dias frios como também eliminou problemas com elevada corrosão e goma, comuns nos carros que rodam direto no álcool. Em locais ou estações realmente frias, o máximo permitido é entre 70 e 75% de etanol (E70 e E75).

Bomba misturadora. Pena que não pegou.

Inclusive isso é algo que você mesmo pode fazer com seu flex, se quiser dispensar o uso do tanquinho: Basta colocar 20% de gasolina a cada tanque com etanol que as partidas serão mais fáceis e você sente o carro até um pouco mais ágil. Outra coisa é a de que aditivos pra álcool não te isentam de fazer a ciclagem de combustíveis. Eles podem até deixar o motor mais econômico, diminuir a aspereza e até mesmo a corrosão do etanol, mas mesmo assim eu tive problemas com entupimento de bicos por goma, que invalidaram toda a economia que tive até então. Se não quiser problemas mecânicos, faça a ciclagem, já citada anteriormente. E se você usa etanol direto, não esqueça de trocar o filtro de combustível a cada 10 mil Km, por precaução. As vezes a goma é formada nele pra depois chegar a linha de combustível.

 

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Comentários

  1. Divulga! Web! disse:

    Saiba tudo sobre motores flex http://migre.me/5kvFp

  2. Rafael disse:

    Saiba tudo sobre motores flex:
    Já faz 8 anos que temos carros flexíveis no nosso país (o primeiro foi o Gol 1.6… http://bit.ly/qps17T

  3. Daniel disse:

    Nessas horas eu penso com meus botões… Meu humilde Mille Fire 2003, MONOCOMBUSTÍVEL, faz mais de 18km/l na BR… Pena que o flex pegou no… Mas fazer o que né… Brazil zil zil zil

  4. Felipe Valle disse:

    Engraçado…meus pais compraram um Meriva Maxx (flex), 1.4, o carro ainda não chegou aos 5000 km rodados, mas pelo que observei, tem rendido melhor com etanol.Com gasolina, na cidade faz uns 12km/l, e com etanol faz 9.

    E quando foi comprado, a recomendação foi para abastecer o carro com Etanol na primeira vez!

  5. Hercons disse:

    Tudo sobre os Motores Flex. Confira essa super #Dica: http://bit.ly/rpEf6Y 😉

  6. Dica: saiba tudo sobre os motores flex: http://migre.me/5pk6E (via @ autozine)

  7. Se você tem alguma dúvida sobre os motores flex agora é a hora de saná-las de uma vez por todas! http://t.co/JvaS6OP

  8. Moacir disse:

    Ótimo post.
    Eu já tive problemas com meu carro ao colocar no tanque um aditivo para motores flex… Agora vou fazer o rodízio de combustível.

  9. pedro disse:

    Tenho um palio sporting 2012/2013 com 5.000 km ,pois bem o carro roda normal com gasolina, quando abasteço com álcool o carro fica estranho, não sai enquanto não esquentar, acho isso complicado , pois já tive outros carros da mesma marca e não tinham esse comportamento, o que eu faço.? será que estou tendo problemas com o sensor de temperatura , o que poderá ser?

    desde já muito obrigado.

  10. marco aurelio disse:

    comprei um carro total flex 2006, so que o antigo dono me falou q so tava usando alcool desde que comprou o carro, nunca botou gasolina, eu queria saber se eu começar a usar gasolina com alcool vai da problema..

    1. Rafael Moreira - Autozine disse:

      marco aurelio » Marco, diria que é um milagre esse carro não ter dado nenhum problema rodando no álcool direto. Eu mesmo já fiz a experiência, e mesmo usando aditivos recomendados, em menos de 7000km eu travei um bico e entupi outro com goma formada pelo álcool.

      Mas vamos a resposta: Eu colocaria gasolina aos poucos, digamos que começaria com uns R$20,00 por tanque e subiria de 10 em 10 e acompanhando o consumo e reação do veículo. Assim você perceberá se ele não irá reconhecer o combustível (rodará com excesso, dando um cheiro forte de combustível e/ou engasgará) sem risco de grandes danos. Caso isso aconteceria, bastaria colocar mais álcool no tanque até a ida a oficina para reparo. Geralmente a solução é o uso de um scanner/raster que dará a instrução pra central se adaptar à Gasolina, como também, dependendo pode envolver a troca da sonda lambda, o sensor que detecta qual combustível está no tanque.