Pra onde vai o nosso trânsito?

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O Camaro de Felipe Arenzon. (Foto: IG)

Estou cansado de tanta hipocrisia. Nosso trânsito mata tanto quanto uma guerra civil, mas poucos se dão conta disso. Nossas ruas e avenidas são vergonhosas, nossa sinalização é dificiente quando não é burra. A fiscalização de trânsito busca punir, mas não educar. Nossas campanhas “educativas” de trânsito são fracas.

Pra completar isso, somos maus motoristas. Dos piores do mundo. Ou você aprendeu na prática direção defensiva na autoescola? Mal aprendemos a fazer uma vaga e achamos que podemos encarar uma estrada.

Mas não é culpa nossa, apenas. Há ‘gersons’ tocando os mais variados departamentos de trânsito, há a inexistência da vontade de fazer algo realmente bom para todos. Nossos exames de direção são ridículos, não se avalia de fato a desenvoltura do aprendiz no tráfego pesado.

Pra complicar, não há consciência nem educação quanto aos riscos e a responsabilidade que envolve a condução de um veículo. Não vou bancar o santo, já fiz muita loucura com carro, mas quando temos ciência dos riscos que corremos, passamos a ter mais cautela, pensamos mais em quem nos espera em casa antes de revidar uma provocação de trânsito ou uma fechada. Mesmo assim há os que se acham imortais, e passam uma vida inteira de imprudências.

Há também os que se acham acima da lei, seja lá por qual motivo for: Sua condição financeira, seu emprego ou seu carro. E acham que isso lhes dá direito para fazer o que quiserem, onde quiserem e com quem quiserem, como o lamentável caso que aconteceu no estacionamento de um petshop em São Paulo:

Será que ela não acha que um dia envelhecerá? E que direito ela acha que tem para ofender um senhor de idade? Acho que o problema não é só de trânsito, mas social também.

O problema todo é acharem que uma campanha de educação no trânsito, que uma reforma no processo de habilitação resolva quando todo o resto conspira contra. Recentemente aconteceu a tragédia em que um garoto de 19 anos voltando de uma balada bêbado de manhã e em alta velocidade bateu em vários carros, entre eles uma Towner pick-up conduzida por um pai de família, a trabalho. A Towner pegou fogo, seu dono teve 90% de seu corpo queimado e após alguns dias internado não resistiu. O garoto? Tentou fugir mas foi preso. A fiança? R$245 mil, bem mais que os R$185 mil de um Camaro. A família teve que vender um imóvel para pagar a fiança, e disse que “não sabia que o filho tinha aquele carro”. Fala sério…

Que criação uma pessoa assim teve? Como deve funcionar a cabeça de um garoto assim, que não passou por nenhuma dificuldade e aos 19 anos possui as chaves de um carro de mais de 400 cavalos? Será que a culpa é do garoto ou dos pais? Não cabe a mim julgar, mas é um debate muito interessante… Não devemos cair no habitual coitadismo brasileiro que muitas vezes soa como inveja, se a pessoa tem condição, ela deve sim ter o carro que quiser, mas deve-se ter consciência do que está em mãos, de toda a responsabilidade que envolve máquinas e vidas. Isso é uma questão de educação, de bom senso. Coisa que se aprende com o tempo, na maioria das vezes.

Vejo muitos jovens tirando sua primeira habilitação, mas que não estão habilitados a conduzir, de fato. Pior ainda, pais que não educam seus filhos sobre como conduzir com inteligência, coisas simples como olhar além do carro que está a sua frente, se vale a pena arriscar sua vida numa ultrapassagem perigosa em troca de segundos de “economia” de tempo.

Trânsito não é uma roleta russa. Nada garante que pode surgir um carro no meio daquela curva, nada garante que não está vindo ninguém naquele cruzamento. Perdi a conta de quantos acidentes eu escapei por basicamente reduzir antes de um cruzamento ou uma rua à noite e por manter uma boa distância do carro a frente.

O Porsche que bateu a 150Km/h no Tucson. A motorista do Tucson estava embriagada e avançou um sinal vermelho num cruzamento. Quem estava errado? Os dois. (Foto: Luiz Guarnieri/Futura Press)

Quando leio uma notícia de um acidente, penso nas pessoas envolvidas indiretamente nele: Como está a família daquele homem da Towner? Que falta ele fará para sua esposa, seus filhos, seus amigos? Quando uma pessoa morre num acidente de trânsito, muitas outras morrem, indiretamente. Toda uma estrada percorrida durante anos de vida, conquistas, memórias… Podem ser interrompidas brutalmente e covardemente assim, do nada. Uma norte besta que muitas vezes poderia ser facilmente evitada, o que não foi o caso deste senhor.

Agora, imagine o impacto de dezenas, centenas de pessoas morrendo todos os dias em nosso trânsito. Só pra se ter uma idéia, segundo dados do SUS, em 2007 morreram cerca de 183 pessoas por dia em acidentes de trânsito. São 7,6 pessoas por hora, uma família desestruturada a cada 8 minutos. Será que não passou da hora de botar a mão na consciência e refletir sobre nosso papel nisso tudo?

De nada adianta 10 Airbags, ABS de nona geração e controle de estabilidade se o motorista não tem noção ao dirigir. Alguns dizem que as gerações anteriores tinham mais cuidado ao volante por medo da máquina. Não haviam carros confiáveis como hoje, não havia limitadores de giro e proteções contra abusos nos motores e freios a tambor eram um pesadelo na chuva ou numa serra. A baixa potência da maioria dos carros desestimulava uma ultrapassagem arriscada.

Mas nada melhor que um carro “ruim” para ensinar como dirigir bem: Temos medo dele, pensamos em todos os riscos: “E se não frear? E se derrapar na curva? Se bater, será que vou sair vivo?” Isso tudo pode acontecer com qualquer carro, independente de sua idade e condição.

Uma coisa que muitos não sabem é que a distância de frenagem varia com o quadrado da velocidade. Por exemplo, a distância para frear de 160Km/h a zero é quatro vezes maior que a distância de 80Km/h a zero. Este pode ter sido um exemplo extremo, mas veja este vídeo australiano que mostra dois carros idênticos, um a 60 e outro a 65Km/h. Pode ser um pouco a mais, mas que quando consideramos o tempo de resposta e a distância percorrida até haver uma reação, vemos que faz muita diferença:

Tá na hora de botarmos a mão na consciência e repensar a nossa maneira de dirigir, de agir, de pensar no trânsito.

Tá na hora de dar valor a nossa própria vida. Dirigir por nós e pelos outros.

ATUALIZAÇÃO: Por fim, vejam o vídeo abaixo, uma montagem com 20 anos de comerciais da TAC, a equivalente ao DPVAT na Austrália, sobre os riscos da imprudência ao volante. O vídeo é forte, vou logo avisando. O Danilo já tinha comentado dele aqui

6 COMENTÁRIOS

  1. Qto ao acidente do porche eu não acho que o motorista deveria ser culpado, pois alem da mulher avançar um sinal VERMELHO, ainda havia BEBIDO e MUITO,

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