O ministro Guido Mantega no anúncio do aumento (foto: Uslei Marcelino/Reuters)

Uma vez um amigo contabilista disse “na dúvida, considere a opção em que o governo ganha mais. Ele nunca perde, mesmo quando está errado” e ela se aplica bem ao caso. Ultimamente há toda aquela discussão em torno do preço do automóvel no Brasil, que é caro, que as montadoras abusam, que nossa carga tributária é alta e tudo o mais. Não sou especialista nisso, mas o preço de quase tudo no Brasil é fruto também da política do “se colar, colou” em que se dá um preço elevado a um produto e se o mercado o absorver em boa quantidade, mantém-se o preço. Claro que há também a lei da oferta e procura e quando o governo abaixou o IPI de diversos setores no ano passado, houve um grande aumento nas vendas, o que, dizem, causou uma inflação acima do esperado e o preço de praticamente tudo subiu.

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Foram tomadas medidas para conter isso: Aumentaram as taxas de financiamento, dificultaram a aprovação de fichas e teoricamente impossibilitaram o financiamento sem entrada. O ritmo das vendas diminuiu um pouco, mas há outro fator envolvido: Importados. Estão vendendo muito, quebrando recordes sucessivos de vendas, tudo fruto de um bom trabalho em marketing, atendimento e pós-vendas. Há exceções quanto a esse último fator, mas fato é que os asiáticos estão crescendo a largos passos por aqui.

Design, tecnologia e preço. Essas três qualidades estavam em falta nos veículos nacionais, por culpa nossa: Aceitamos pagar caro em nossos carros, desprezamos tecnologias como cabeçotes multiválvulas (motores 16V), airbags de série (Renault Clio e Scénic) e sobrealimentação (Turbo e Supercharger). Nos preocupamos mais em estar num carro “novo” básico do que andar com um mais antigo, porém completo. Dizem que somos apaixonados por carro mas a maioria não tem o costume da manutenção preventiva e qualquer R$10 ou 20 a mais numa peça já é motivo para choro.

Por tudo isso, acho errado culpar as montadoras pelos carros que temos. Elas precisam lucrar e oferecem ao mercado o que ele pede. Se eu posso vender toda a minha produção por um preço elevado, porque abaixar? Para haver uma grande procura, minha empresa não dar conta e ter clientes insatisfeitos e a reputação manchada? Nós no lugar de um gestor, que precisa dar o máximo de resultados gastando o mínimo seríamos obrigados a fazer o mesmo.

Muita gente (incluindo eu) estava com grande expectativa quanto à chamada “invasão chinesa e asiática” no nosso mercado. Achávamos que oferecendo produtos completos e de qualidade a preços convidativos nossa indústria iria se mexer e se modernizaria, pressionando o governo para abaixar os impostos e assim, mesmo que aos poucos, teríamos carros melhores e mais baratos. Ledo engano…

O governo ofereceu novamente subsídios em impostos buscando reaquecer a venda de automóveis, e as fábricas responderam que não abaixariam os preços e que o subsídio facilitaria a instalação de Airbags e ABS sem grande impacto no custo, por exigência da lei que obriga os fabricantes a venderem um percentual de veículos cada vez maior com tais equipamentos. Em 2014 todo carro vendido no Brasil deverá ter eles de série.

O governo não aprovou tal subsídio e numa medida provisória (e protecionista) aprovou o aumento de 30% sobre o IPI de todos os carros com menos de 65% de peças nacionais e regionais (Mercosul e México, onde temos acordo comercial). Além dos componentes, os fabricantes precisarão cumprir pelo menos 6 de 11 requisitos em território nacional como montagem do veículo, estamparia, pintura, fabricação de motores, transmissões e embreagens, por exemplo. Quem se enquadrar nisso e ainda por cima investir no desenvolvimento de novas tecnologias no país está dispensado da alíquota.

Essa medida absurda tem como objetivo claro estimular a geração de empregos no país, mas de também ferrar os chineses e coreanos que estão crescendo muito em nosso mercado, e investindo nele também.

Muita gente questionou quando Hyundai, Kia Chery e JAC anunciaram planos de construir uma fábrica no Brasil e/ou expandir as já existentes. Aqui é mais caro, em alguns ramos a mão de obra é escassa e as leis trabalhistas são muito severas. A construção de fábricas deles ao meu ver foi uma estratégia para em caso de medidas absurdas como a de agora, elas não fossem tão afetadas como estão sendo. E também servem como uma defesa, por exemplo “não estamos apenas lucrando em seu território. estamos investindo nele!”. Mas o engraçado é que carros vindos de países do Mercosul e de países que o Brasil tem acordos comerciais (México) estão dispensados do imposto extra, ou seja, poderão construir fábricas na Argentina ou Uruguai (que sai bem mais barato) e entrar aqui com bons preços.

O que pode vir a acontecer

-Algumas fábricas que investiram em estrutura de vendas e distribuição perderão vendas e caso não tenham como conter a perda diminuindo sua margem de lucro, podem se retirar do país.

-O argumento de “mais por menos” das chinesas pode cair por terra e seus produtos podem não valer mais tanto a pena assim. Pelo risco, muitos clientes potenciais podem optar pelos nacionais.

-Garantia de longo prazo: Se alguma delas sair do mercado, não se sabe como seus clientes farão com garantia e compra de peças pra reposição. Vai levar um tempo até auto-peças comuns terem estoque pra tais carros, mas há o grande risco disso não acontecer e terem que recorrer a importadores de peças.

-Elevada desvalorização por conta de falta de assistências e disponibilidade de peças no mercado.

-Não sei quanto as obras de novas fábricas. Pode ser que continuem, pode ser que alguma marca saia do país e venda a estrutura para outra, mas é uma hipótese remota.

Tudo isso poderia ser evitado se houvesse o aumento gradual de tais impostos. Haveria todo um planejamento das próprias marcas para se adequarem às exigências do mercado e muitos problemas poderiam ser evitados. Caso as marcas fechem revendas ou até mesmo saiam do país, haverá desemprego no setor e novamente ficaremos com veículos defasados e na mão de poucos fabricantes. É uma pena que tudo isso esteja acontecendo. A concorrência é saudável para o mercado e principalmente ao consumidor, que merece produtos de qualidade e tecnologia. A abertura das importações nos anos 90 revolucionou nossa indústria e nunca o setor automobilístico nacional evoluiu tanto quanto naquela época. Já vi esse filme antes em 95 ou 96 quando a alíquota de importação subiu de 35 para 70% da noite pro dia. Naquela época o Tipo chegou a ser o carro mais vendido do país por um mês, na frente do Gol, pouco antes do escândalo dos “motores fire”…

O Tipo chegou a ser o carro mais vendido do país. Logo após, aumento drástico no imposto de importação.

O que já está acontecendo

-A JAC Motors enviou uma nota à imprensa dizendo que tal medida é desnecessária, visto que quando houve um aumento do tipo, estávamos num cenário econômico totalmente diferente do atual, e que eles não representam uma ameaça, já que todas as marcas chinesas juntas representam apenas 2,5% do total do mercado. A medida também fere as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) em que o teto para alíquotas para importação de automóveis é de 35%. A JAC informou também que graças ao seu estoque, por enquanto não haverá alteração nos preços de seus veículos e que os planos de construção de sua fábrica no Brasil (um investimento na ordem de R$900 milhões) permanecem inalterados.

-A ABEIVA (Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores) enviou uma carta aberta à presidente Dilma pedindo para que o decreto 7567 seja revisto. É quase certo de que a associação entrará com ações para invalidar tal medida, que segundo seu presidente, José Gandini, . “Em questões de impostos como IPI, as mudanças só podem acontecer após 90 dias do anúncio.”

E o que aprendemos com isso tudo? Que em nosso país, reina a “Lei de Gerson” em que se busca levar vantagem em tudo e que o brasileiro sempre pagará a conta pelos erros de nossos representantes. E que mais uma vez, a frase de Charles de Gaulle faz todo o sentido, “Le Brésil n’est pas un pays serieux” (“O Brasil não é um país sério”).

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Comentários

  1. Divulga! Web! disse:

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  4. Paulo Roberto disse:

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  5. Castle_Bravo disse:

    Todo mundo fala na chinesada e nos coreanos que sinceramente, mereciam esta “porrada” do governo brasileiro, vendem carros porcamente produzidos, com uns mimos a mais e margens absurdamente mais altas que as jurássicas montadoras “nacionais”, pior é que todos ficam felizes com isto.

    Os grandes prejudicados com o aumento do imposto são os que ainda sonham um dia num carro de nível superior, como um Audi, BMW ou Mercedes, ou ainda superesportivos que já eram razoavelmente inacessíveis, agora viraram um sonho mais distante.

  6. O que aprendemos com os 30% a mais de IPI para carros importados: "O Brasil não é um país sério" http://t.co/fCI7RIa9 #fato

  7. Daniel disse:

    Aumento de impostos só é feio no Brasil. E o protecionismo internacional contra produtos brasileiros? Pois é…

  8. Wellington Cleyber disse:

    Concordo plenamente em organizarmos uma manifestacao contra o aumento do IPI. Pois essa medida para quem procurou se informar sabe muito bem que e unica e exclusivamente para defender o lucro das 4 grandes, e nada de proteger os empregos dos metarlugicos como diz o discurso brando do ministro. Voltando a manifestacao que e o q interessa no momento, temos o poder de nos organizarmos nos blogs e sites serios que podem publicar e organizarem essa manifestacao em certa data, com certeza se cada um desses contribuir teremos um numero consideravel de manifestantes. O poder esta na mao de voces editores dos blogs,…..Lancem a nota que com certeza terao varios adeptos, sem falar na grande repercussao e reconhecimento. Nao vamos mais assitir sentados sem fazer nada, vamos nos movimentar em prol de tentar melhorar um pouquinho que seja essa sacanagem q rola no nosso pais.
    Aguardo retorno, e podem contar com minha ajuda

  9. Acho um desrespeito com as montadores Koreanas e Chinesas. O que está acontecendo é uma falta de ética que chego a ficar envergonhado, mesmo não conhecendo algum gringo. Os governantes desse país já não prezam pela honra, sendo assim não tem palavra de homem, e me refiro a OMC. Queria muito ver os próprios governantes dando um tiro no pé, e quem sabe isso é o inicio de tudo? Veremos as próximas notícias.

  10. RT @autozine: O que aprendemos com os 30% a mais de IPI para importados http://t.co/HbMwxzkh

  11. junior disse:

    Somente Lamentavel esse protecionismo !!!
    Enfim as “tranqueiras” vão comemorar e poder aumentar mais o valor dessas carrocas sem abs, airbag etc…!!
    E a saudavel concorrencia que ja fez algumas montadoras nacionais retrocederem nos valores absurdos dos seus carros sem qualidade equiparada , devem voltar a dar a famosa subidinha nos valores aproveitando o momento dos importados que terão valores mais encarecidos…
    Olha nós de volta com opção somente nas 4 famosas nacionais, devem ter suspirado e comemorado dizendo : “Oba vamos vender sem freio , sem painel , roda 13.. e vamos mandar bala que o valor vai para o mercado por 42000,00 …. ” que todos os Tro….vão comprar !!!
    Nosso Collor não fez nada que prestasse em seu governo, mas quando disse que nossos carros eram verdadeiras carroças e com preço de audi, mercedes …e era um absurdo ..concordo que estava certissimo !!!!

  12. ucardz disse:

    Mantega o novo “Bond villan”

  13. O que aprendemos com os 30% a mais de IPI: http://t.co/p9ELVcFO

  14. alan patrick disse:

    O que aprendemos com os 30% a mais de IPI: http://t.co/p9ELVcFO

  15. Rogerio Silva disse:

    Concordo com o governo. O Brasil é um mercado em potencial, a crise está afetando muito mais os outros mercados, muitas montadoras estão com os olhos voltados para o mercado brasileiro, e o governo entrou nessa onda sinalizando que se quiserem terão que investir em mão de obra brasileira, e não somente entregar um produto já acabado.
    Prefiro pensar a longo prazo, e neste caso o melhor para o País é que as montadoras fixem raízes por aqui, gerando mais empregos e receitas. Pensem bem, com o tempo não teremos mais somente as 4 montadoras atuais. Será muito melhor para o País! Este aumento prejudica um pouco a curto prazo, mas duvido que alguma montadora desistirá de investir no Brasil por causa disso, devido ao enorme potencial consumidor que temos. Aliás, anúncios de investimentos já estão ocorrendo, vide Nissan, Cherry, Jac, Volks caminhões, Hyundai, Suzuki, toyota… isso sem falar do setor de motocicletas: BMW, Halley, KTM, Kawasaki, só pra citar algumas…